domingo, 30 de dezembro de 2012


O caminheiro

 

    Os caminhos por que cruzei. As pedras que em meu caminho encontrei foram pequenos asteroides colocados pelo Céu, em sua máxima vontade, para que eu aprendesse algo frutífero.
    Não gostei de ouvir as vozes clamantes, as torturas verbalizadas sofridas pelos cansaços de braços e pernas, de algo que se possa chamar de homem.
    Sou caminheiro!... Sou carne que vê as outras carnes apodrecerem, se estimarem em algo que não se resume a nada perante as Leis da Natureza. Com meus passos indistintos, ferozes para comigo mesmo, tracei comparações, fiz análises acerca de meus semelhantes!...
    Constatei a inveja, a protuberância no ego de seres inatamente consagrados em sua mediocridade!... Como podemos proceder a respeito de tantas misericórdias concedidas por Deus? Como posso perscrutar os enigmas da Vida, se ela mesma se faz Mistério intransponível? Há controvérsias, há controvérsias...
     O Firmamento me esclarece: é ser decrépito, é sombra da Vontade, do Desejo, é ser claramente imerso em obscurantismos malditos, o Homem. Prazeres incontroláveis, moral supostamente não violável, mas aberta totalmente às críticas!
     Oh, Destino!(Que põe a mim como seu fiel escudeiro)! Cauterize-me as torpes indagações, as dúvidas pelas quais eu coloco-me! Sou caminheiro, e ainda sim, não compreendo as majestades imperantes em meu esqueleto!...
    Claro vejo-me: um homem torpe, um homem decapitado! Sou inútil às imagens criadas dos homens, posto que são a imagem e semelhança do Criador! E ainda afirmo-me como um estóico, perante Séneca, perante Epíteto, perante os gregos memoráveis!...
     Sou caminheiro... pelo o quê devo atrever-me? Até quando minhas carnes ainda suportarão o peso de meu sumiço...?

   

domingo, 16 de dezembro de 2012


A guerra

 

Ah... Como trago à ponta de uma lança
As infinitas lágrimas de antigo
Coração brusco, chave que não cansa
De a mim abrir-me portas de mendigo!

 
Se rosas mortas são-me a hasteada
Bandeira cega, pontes cairão
Entre o Desejo e a Fé adulterada...
Escaravelhos belos no caixão

 
De minha carne, vivos, serão postos!
Estou vencido, ossos desgastados...
Há tanto tempo não vejo-te os rostos...

 
Ainda me querem são, mas estou fraco!
A imensa Guerra, travo aos Amados...
Àquela a que chamamos Amor-Aço!


 

 

domingo, 2 de dezembro de 2012


Ciclo

 

Esta é a mão minha, pálida, que treme
Ao construir-te em forma de palavras!
Tua rouca voz imita a das escravas,
Que à Lua implora pelo céu que geme...

 

Não te dei à vida pernas ao volteio...
Ainda que gozes, clames, a tua lágrima
Será derrota mágica na esgrima,
E as tuas misérias hão de ser o enleio!

 

Na curvilínea face, oh quimera
De estratosférica e alva magnitude,
Vejo o alastrim tornando-te o alaúde,
Pois é a Desgraça a monarca que impera!

 
Ah!... Como admiro teu Pendão celeste!
Tu és meu sonho trágico e apertado...
Vivo e mortal, serpente e fogo armado,
Que aos galopes, como Corcel vieste!

 
Lindos planaltos mórbidos, vicejo.
Graças a ti, meus olhos serão eternos...
Meu coração terá a benção dos Infernos,
E num suspiro, o último bocejo...

 
Caiamos nós, unidos e felizes!
Que desbravemos ares outros: ser...
Posto que a terra há de nos comer,
E viveremos sob outros matizes.

 

sábado, 27 de outubro de 2012


Cálculos-convexais

 

Pelos olhos teus,
Transformo-me no mais amplo campo de incertezas.
Como, a ti, posso apresentar-me sob a forma em que me vês?
Digo: da forma real, sem labirintos, mas cheia de equações?

 

Possuo traços tão inexatos:
Meu rosto ora é bronze, ora é prata, ora é ouro:
Tamanhas diferenças entre o que sou e o que enxergas:
Trates da visão problemática: visto-me sempre de
                                                                          [interrogações.

 

Sei que quererias um anjo à sua fronte.
Em verdade, vês uma Luz. Em verdade, vês uma salvação.
Mas, digo-te: sou deformado. Sou doente de teus olhos...
 

 

A casa

 
(Paredes aparentes.)
Assoalho vestido de lembranças...
Ares de passado, madeira pelos cupins carcomida.
A senhora residente - e não menos dolorida nos olhos chora!
Seus arrebiques já escorrem numa síntese de calamidades,
Tais como os tsunamis que invadem as outras casas – o homem.
A casa é sempre um claustro, seguro talvez...tranquilo, talvez...
Não encontremos nela contradições, posto que não existem:
Esta casa citada se faz da mesma matéria que as outras:
Anseios, frustrações, devaneios e solidões...
O real problema são as órbitas. As outras casas são o problema!
Enfileiradas pelos quarteirões, unidas por desgastado cimento,
Entreolham-se aflitas e desconfiadas, agressivas muitas vezes,
Assassinas e assassinadas outras vezes...
E quanto às árias tocadas em seu interior?
Em casas novas e alvas, reformadas em seus mínimos detalhes,
As árias são compostas por Anjos benevolentes.
No entanto, em casas velhas, como é o caso da senhora,
As melodias que a ti constroem são de grandes urubus,
Estátuas em tua cabeceira.
O tempo oferecera mudanças, minha senhora! Oferecera venenos
Para que cuidasse dos cupins, teus amigos de longa data,
Mas que não via a hora de vê-los partir eternamente.
É... o tempo passou, e o que fora feito? – Nada...
Em tua casa ainda permanecem lágrimas, saudades e demônios.

Preocupa-me isto. Não sei se queres levar estas humanas Fragilidades para o outro mundo – se é que o há de fato.

 (Tua casa demolida, sinal de que estás morta).

sábado, 21 de abril de 2012


Memória: vislumbrais!

Parto de Minas como quem parte
Para um estranho mundo de coisas.
Parto de Minas sem ainda saber que existo,
E que sou feito de carne e de ossos e de ofícios futuros.
Parto de Minas como os cegos partem para o escuro...
Nem mesmo os pedregulhos que embarreiravam
Meu caminho, conheci. Tinha meu corpo embalado
Por minha mãe, por meu pai, pelos outros de minha família.
Oh, Minas! Minas! Minas do meu coração...
Ainda lembro-me que andava com medo,
Tendo-me em meus primeiros passos para a vida,
Tropeçando, e sendo erguido por Anjos.
(Não há de haver pecados num’alma tão tenra, tão dócil, 
                                                                               [tão ingênua.

                                                                               
Longa viagem, fiz.
Os campos que via desdobrando-se em grandiosos
Latifúndios eram meu berço. Os conhecia, despedindo-me deles:
Adeus à manhã, adeus ao galo que cantava em minha casa,
Adeus à noite que morria, mas que dava lugar ao sol que era só
                                                                                     [de Minas.


quarta-feira, 28 de março de 2012

 




Estátuas Reversas

 
Às mulheres que esperam à porta, que nunca abre.
Às mulheres que esperam seus marinheiros
De longas viagens e guerras voltarem,
Pelos mares do Sul e pelos mares do Norte.

 

Às mulheres sem sorte...

 

A essas pobres, pobres mulheres,
Que sonham com olhos de vidro
E tem por senhores, a Morte de marfim!
Às cantoras de bocas em botão.

 

Procuram entre os oceanos, o ouro de aluvião...

 

Gozam elas dum retórico sortilégio!
Delas, os destinos não se cumprem,
Pois as ruas donde pisam são feitas de nuvens,
E o amor se perde em meio às máscaras das estrelas...

 

Dores e lágrimas: claramente, posso vê-las!

 

Quão distantes são os caminhos
Para que duas mãos se encontrem, mas não se machuquem!
Ai, essas mulheres, tristes mulheres! Mulheres sozinhas...
Flores? Beijos? Amor? (Hipóteses amarradas ao vento).

 

...e do ventre – morada escura de seu infeliz rebento,

 

Não sabem se nascerá uma vida, uma gota d’água,
Uma vela, um túnel, uma existência crucificada!
Se se clarificam por uma esperança doce,
Se se deixam guiar pelos oceanos vazios de seus maridos,

 

Hão de entristecer ‘inda mais, os olhos feridos!

 

Como gritam, como rogam e como imploram
À Afrodite, um pequeno favor dos Céus:
“Para as donzelas sofredoras, para as donzelas humilhadas,
Substitua o baú de barro onde mantém as sombras dos amantes,
Por um de espelhos!” (Acalentadas serão, pelas alegrias

                                                                                 retirantes!)