terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Ilha dos Amores
I
Urubus em meus dedos pousam
Quando os ergo em súplica aos céus!
Nenhum sinal do vento, do mar, da relva...
Nenhum sinal de nada, nenhum!
(sou alma esquecida na Ilha dos Amores.)

II
Ó desespero, ó desgraça, ó desventura...
Há tempos que estou perdido nesta terra de ninguém!
Há tempos que vejo voarem minhas lágrimas
Como pássaros, no escuro firmamento!
(estas, minhas amigas nas horas de solidão.)

III

Virão a perguntar-me as pessoas, creio,
Como vim parar neste lugar:
Responderei que fora um repleto navio
De dores e tormentas, que me trouxe em longa
                                                                  [viagem...
(navio feito de sol transformado em sangue.)

IV
Desde que cheguei aqui, a Loucura é meu afã!
Nada vivo, nada penso, nada! Nada existo...
O que segura meu corpo, tão somente é uma
Esperança que rabisca o céu feito um trovão!
(ela desfalece a cada respiro meu.)

V
Ó, Ilha! Ó, Ilha! Ó, Ilha dos Amores...
(Para cá são trazidos os desertados duma vida triste,
Duma vida composta por beijos-sertão!)
Acolha-os bem! Dê a eles o que comer, o que sonhar!
Em seus braços, espero que se sintam mais libertos!
(e que se esqueçam, enfim, de que por amor sofreram!)
O propósito numa curva

O que lês, meu caro, nesta página
Em branco, é o sangue e a morte dos meus sonhos...
Entretanto, um célebre poeta costumava dizer:
“Quem faz um poema salva um afogado.”
Ora! Isto, decerto, é muito interessante, mas
                                                              [contraditório.

Ao menos em meu caso, fico sempre a indagar-me:
Que podem meus ínfimos versos, uns pobres mendigos,
Pedaços de mim que se constroem
Desfazendo-me por inteiro?
Pobrezinhos, pobrezinhos! São crianças sem cor a
                                                                    [chorar!

Que podem eles, meu Deus?! Mal se sustentam...
Mal se vêem ao espelho, mal respiram a esperança!
Mas, se d’alguma valia gozam, que esta se faça notória
E profunda, benéfica para os corações dos loucos,
Dos ébrios, das almas vagantes pela Terra das dores!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Transformação

Ouço cantarem as aves
Puras e tristes sonatas!
Seus cantos são mais suaves,
Vozes de pranto e cascatas...

Numa gaiola, o Sabiá
Tem seus ensaios...brado triste!
Soluçares, eu ouço cá...
Maiores dores, não viste!

Uma bicada no azul
Entre os ferros da prisão,
E as asas presas no paul:
Sabiá tenta a salvação!

E pelas negras opalas 
Do Sabiá, passa o mundo...
Passam sonidos que tu calas,
Pois Sabiá é moribundo!

Mal sabes tu, grande homem:
Do mesmo alpiste tu vives!
Que de teus sonhos, todos somem...
Que os cantares teus, ourives

Algum se põe a lapidar:
Muito esquecido, estás...
E como as aves, cantar
Também não podes: aqui jaz!

Pode de ferro ter as mãos,
O homem, cálidas serpentes...
Mas não resistem aos vãos
Dentro d’alma as culpas ardentes!

Trazes consigo a mesma sina:
Preso tu estás, sem redenção...
Tenta cantar na colina,
Teu Sabiá em coração!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Eleito

A noite sempre me traz um triste queixume e
Segreda-me sobre grandes poetas, mortos:
Suas desgraças e dores e seus versos tortos...
Mas, ó! Como fala-me o etéreo vagalume!

“Quanta saudade”, diz-me a noite vaporosa...
“Saudade dos áureos tempos, dos tempos idos:
 Aqueles em que a dor e o pranto eram queridos,
 E a lágrima dos cantos era a mais luminosa!”

 Ó, noite! Minha amiga das eternas desgraças...
 Quero de ti ser o Eleito, aquele vivo
 Condor imenso, a desbravar-te, sensitivo...
 E pelas brumas tuas, ao mundo levar Graças!

 Deixe com que eu a cante, como ninguém o fez...
 Serás tu mais feliz, e não terás viuvez!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Girassol

Doce girassol,
Que acompanha o movimento do sol:
Girando para cá e girando para lá...
Girando em torno de sua própria
Alegria de girar...


Cantiga das Horas

Horas vêm e vão
Nos dias, meses e anos,
Neste tempo que transcorre da vida.

Horas vêm e vão
Nos dias, meses e anos,
Em que tenho horas vazias e horas solitárias.

Mas, quando vejo
Em quais horas fui em suma feliz:
Vejo hora nenhuma...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O boneco apaixonado

Não consigo amarrar os sapatos,
Pois meus cadarços são de aço
E em minhas veias pulsam estáticas melodias.

Não consigo amarrar os sapatos,
Pois minhas mãos e pés o encantamento respiram
Quando malogrado vejo-me diante do espelho.

Minha vida é um grande vazio de movimentos...

Eu aqui, parado, contemplo n’amplidão
Tua Luz, teu patamar elevado, tuas mãos;
Da sorte que não tenho, só fico a sonhar-te!

Os caminhos para alcançar-te, não trilho...
Estás muito longe... quase a ti, não enxergo!
Nem ao menos no bolso, consigo o teu brilho guardar...

Meus sonhos sufocam-se pela iminência do impossível...

Enfim, sou exatamente isto que vês:
Um reduto...um reduto de paralisias!
Contudo, mesmo sendo o que me resume,

O Vento, as Cachoeiras e Cavalos, eu amo...
Os invejo, por isso que os amo:
Não vivem assim como eu...assim tristes...

Minha esperança na Roda da Fortuna reside!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Cíclico

O que sei eu do mundo?
Tudo que me rodeia parece tão escondido
Nas sombras das ruas...

(Há uma sombra em cada olhar dos seres!)

Procuro uma estrel’alva, uma estrela
Bela, crucificada, do Céu despendida!
Na Luz, busco uma resposta para este mistério...

Assim vago, assim vivo, assim vejo...
Mas sei que há respostas! Certamente, há respostas!
Mas onde estão? Em qual concha precisa de sonho?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Século XXI

As enfermidades nascem das circunstâncias,
E nada se pode contra poder do acaso.

O silêncio entre um fato e outro perturba,
Fere e inutiliza o meu grito de um instante.

Invariáveis esquinas, sempre mudas,
Tornam-se palco luminoso para a Morte...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A taça

Sonhemos, amor meu! A terra que nos cala
O beijo nosso é um triste recanto da dor!
Ao som do Urutau, tudo sobre nós resvala e
Perde-se no seu doce canto de clamor...

Por prados, pelas montanhas e pelos vales,
Vagaste para além do lindo horizonte!
Esqueça-te das dores...bem aí, não há males
Em ti! Goza-te da viagem com Caronte...

Amor, deixa-me a ti eu seguir...seguir teus passos...
Que o mar todo se abra e sepulte-me no fundo!
Quero ver-te n'alma a grandeza dos Espaços,
E assim, feliz, dar meu último adeus para o Mundo!

Ó, Mundo vão! Ergo a tua Taça, docemente...
Bebo-a e faço-me Anjo, a Estrela eternamente!